Nos últimos anos, a Série A do Campeonato Brasileiro tem mostrado uma mudança de postura por parte dos clubes. Desde a chegada de Jorge Jesus ao Flamengo, em 2019, os técnicos estrangeiros — sobretudo os portugueses — passaram a receber mais espaço e paciência. De lá pra cá, uma pesquisa revelou que esses profissionais costumam permanecer quase 100 dias a mais no cargo do que os treinadores brasileiros, o que reforça a confiança cada vez maior dos dirigentes no trabalho vindo de fora.

O dado reforça uma mudança de postura nos bastidores do futebol nacional. Enquanto técnicos locais ainda enfrentam grande rotatividade, os portugueses têm conseguido mais estabilidade e tempo para desenvolver seus projetos. Além disso, os resultados costumam acompanhar essa permanência estendida, o que fortalece ainda mais a confiança dos dirigentes nos nomes vindos de Portugal.
Esse fenômeno não é isolado. Ele reflete uma transformação cultural no modo como os clubes gerenciam suas comissões técnicas, especialmente diante da pressão por resultados e do calendário intenso do futebol brasileiro.
Permanência dos portugueses é quase três meses maior
Segundo levantamento feito pelo ge, os técnicos portugueses que passaram pelos times da Série A entre 2019 e 2024 ficaram, em média, 273 dias no comando. Já os treinadores brasileiros, no mesmo período, permaneceram 178 dias. A diferença, de 95 dias, representa quase três meses a mais de trabalho para os estrangeiros.
Essa margem ganha ainda mais relevância quando se observa o histórico recente da competição. A cada rodada, é comum ver clubes demitindo técnicos após sequências curtas de maus resultados. No entanto, essa lógica parece não se aplicar com a mesma frequência aos profissionais lusos.
Há uma percepção de que o técnico português chega com um “crédito” maior. Muitos deles são contratados com promessas de projetos a médio prazo, contam com investimentos mais robustos e, por isso, recebem um voto de confiança ampliado. Esse cenário favorece a construção de equipes mais consistentes e o amadurecimento das ideias de jogo.
Estabilidade traz resultados esportivos
A maior permanência no cargo não é apenas um privilégio — ela tem gerado resultados palpáveis. Clubes que apostaram em técnicos portugueses tiveram, em geral, campanhas mais sólidas. O aproveitamento médio desses treinadores foi de 56%, contra 49% dos brasileiros.
Outro fator que reforça essa preferência é o desempenho expressivo de muitos desses técnicos nas fases decisivas dos principais torneios do país. O caso mais emblemático segue sendo o de Jorge Jesus, que em 2019 protagonizou uma campanha histórica à frente do Flamengo, levantando a taça da Libertadores e do Brasileirão. Mas ele não está sozinho — Abel Ferreira, por exemplo, também se consolidou como um dos grandes nomes ao conquistar duas vezes a Libertadores comandando o Palmeiras.
Com resultados tão consistentes, não é surpresa que os treinadores portugueses continuem entre os mais visados pelos clubes de ponta do futebol brasileiro. Eles não apenas ficam mais tempo, como também entregam o que se espera — ou até mais.
Comparativo de permanência média entre técnicos (2019–2024)
| Nacionalidade | Dias médios no cargo | Aproveitamento (%) |
|---|---|---|
| Portuguesa | 273 | 56 |
| Brasileira | 178 | 49 |
| Argentina | 192 | 51 |
| Uruguaia | 181 | 50 |
| Espanhola | 200 | 53 |
O que atrai os clubes aos técnicos portugueses?
A escolha por treinadores portugueses vai além da língua em comum. Os clubes enxergam nesses profissionais características valorizadas no futebol atual:
• Formação acadêmica sólida e atualização constante.
• Estilo de jogo ofensivo, com posse de bola e pressão alta.
• Capacidade de liderar grupos multiculturais com disciplina e diálogo.
Além disso, esses técnicos costumam chegar ao Brasil com um repertório tático bem definido. Muitos passaram por centros de formação europeus e trazem metodologias diferentes das praticadas por aqui. Isso agrega novas dinâmicas ao dia a dia dos clubes e ao próprio estilo de jogo das equipes.
No entanto, o interesse dos clubes também tem a ver com os resultados expressivos recentes. O sucesso de alguns abriu caminho para outros, criando um ciclo de oportunidades que tem se mantido ativo nos últimos anos.
Brasileiros ainda são maioria, mas enfrentam mais pressão
Apesar da valorização dos estrangeiros, os técnicos brasileiros ainda são maioria nos elencos da Série A. No entanto, eles vivem sob um contexto mais volátil. Em muitos casos, são contratados com a missão de apagar incêndios ou reverter crises, o que naturalmente reduz o tempo de trabalho.
Além disso, há uma tendência nos clubes de colocar treinadores da casa à prova logo após uma demissão, sem oferecer estrutura ou planejamento. Isso compromete os resultados e alimenta a sensação de que os brasileiros “não rendem”.
Ainda assim, há exceções importantes. Treinadores como Dorival Júnior, Fernando Diniz e Tite vêm demonstrando que, com tempo e respaldo, o profissional brasileiro também é capaz de entregar projetos consistentes.
Permanência média por técnico na Série A (últimos 3 anos)
| Técnico | Nacionalidade | Dias no cargo | Clube mais recente |
|---|---|---|---|
| Abel Ferreira | Portuguesa | 1100+ | Palmeiras |
| Fernando Diniz | Brasileira | 620 | Fluminense |
| Vítor Pereira | Portuguesa | 310 | Flamengo e Corinthians |
| Dorival Júnior | Brasileira | 480 | São Paulo |
| Luís Castro | Portuguesa | 370 | Botafogo |
Há uma tendência definitiva ou um ciclo temporário?
A preferência por técnicos portugueses pode parecer, à primeira vista, uma moda passageira. No entanto, os números e os resultados apontam para um movimento mais profundo. A permanência prolongada, somada ao desempenho consistente, revela uma mudança de cultura na forma como os clubes enxergam o comando técnico.
Isso não significa, porém, que o profissional brasileiro esteja sendo deixado de lado. Pelo contrário, há espaço para todos — desde que haja planejamento, estrutura e tempo. A diferença, por ora, está no tratamento dado a quem chega de fora.
Especialistas avaliam que o futebol brasileiro ainda vive uma fase de transição. Os dirigentes começam a entender que trocar técnicos a cada tropeço não resolve problemas estruturais. A tendência, portanto, é que o mercado busque mais equilíbrio na hora de definir o comando técnico.
Média de trocas de técnico por clube (2022–2024)
| Clube | Trocas no período | Técnico mais longevo |
|---|---|---|
| Palmeiras | 1 | Abel Ferreira |
| Flamengo | 5 | Jorge Jesus (em 2019–2020) |
| Corinthians | 4 | Vítor Pereira |
| Botafogo | 3 | Luís Castro |
| Santos | 6 | Nenhum acima de 200 dias |
Tempo é aliado do bom trabalho
A discussão sobre técnicos portugueses na Série A passa, essencialmente, por uma questão de tempo. Eles não são melhores por serem estrangeiros, mas porque, na prática, têm recebido condições mais estáveis para trabalhar. Esse tempo extra permite construir ideias, ajustar o elenco e criar uma identidade dentro de campo.
Enquanto isso, os técnicos brasileiros ainda enfrentam ciclos curtos e pressões imediatistas. Muitas vezes, são cobrados por resultados rápidos em contextos desfavoráveis, o que inviabiliza qualquer projeto mais ambicioso.
Portanto, o sucesso dos portugueses no Brasil não deve ser visto como exclusividade, mas como consequência de uma estrutura que, quando bem planejada, favorece qualquer profissional — independentemente da origem.
Em tempos de mudanças aceleradas no futebol, a lição que fica é clara: confiança, continuidade e competência andam juntas. E quando um técnico recebe respaldo para trabalhar com calma, os frutos aparecem. A Série A tem mostrado isso rodada após rodada.



